Metralhadora Giratória

Atirando por todos as direções. Azar se for o alvo, infeliz se for munição. A inconveniência é um prazer. Questão de afinidade.



ESSES METRALHAM BEM
Marião
Sérgio
Ronaldo
Fernanda
Na moita, mas achei
Raquel
Adriana du Mal
Desgraceira
Lu, a boleira
Fausto à lá O´Neill
Eduardo Castanho
Fao Carreira
Marisola
Junior Leal
Mari P., my bró
Mão na Bunda
Casa do Horror

METRALHE
Vai, puxa o gatilho!


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Quinta-feira, Setembro 30, 2004
 
Sartriniando
Tínhamos sonhos, esperança em algo,
a final da década de 80 e início dos anos 90
Tudo que a gente queira era prestar vestibular,
fazer faculdade, se formar e trabalhar
Enquanto isso o Homem do Sapato Branco, o Chacrinha,
o Bolinha e o Balão Mágico estavam lá,
Encontrar alguém, talvez ter filhos, com o dinheiro
do salário comprar uma casa, carro do ano e viajar
Teríamos duas férias: julho e dezembro
Iríamos ao parque alimentar os pombos nos finais
de semana e feriado,
Ouvindo Ramones, Clash, Raul e Legião a vida era
um pouco mais amena
O tempo passou. A grana não deu pra pagar a faculdade,
veio a dívida e a atitude incontrolável de ficar com várias
pessoas, encher a cara assim como nos velhos tempos
Hoje a maioria está só. Não por falta de ter alguém
mas por uma forma de vida, a de não investir em nada
Programas de TVs podres, as merdas dos Big Brothers,
Casa dos Artistas, loiras oxigenadas e morenas putas, mães
de filhos de roqueiros ou apresentadores gays
Não temos a casa que desejávamos, alugamos um apartamento
e rachamos alguns quartos com amigos, ou moramos em
pocilgas com apenas quarto, sala e banheiro
Temos de aguentar as lotações, metrôs e, ainda bem, existe
o cartão que dá pra rodar em ônibus duas horas seguidas
Não vamos viajar única e exclusivamente por falta de grana
Uma ida à praia num find já é uma vitória
O som se mantém, apesar de quase todos os Ramones se forem
Férias não tiramos pois não chegamos a completar um ano
em um único trabalho,
Também não alimentamos pombos nos parques, algumas vezes
apenas os olhamos nas praças sujas das calçadas fedendo a
moradores de ruas. Aliás, não vamos aos parques devido aos plantões
Enfim, sobrevivemos e existimos. Ponto.
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Sexta-feira, Setembro 24, 2004
 
Retrô
Ela chegou e disse: não posso mais
Eu falei: tudo bem
Então voltou: oi, vamos nos ver
Fui, claro.
Disse novamente que iria embora
Não hesitei em tranquilamente dizer: tchau
Voltou, aceitei de novo, foi intenso. Foi embora
e eu só me entusiasmei a falar: então, tá
Numa tarde quente do final do inverno ela apareceu
em meio a Boulevard Ceasers, num café
Tenramente me beijou e, numa semi-fúria tirou
seu salto, passou os dedos dos pés em minha perna,
pegou minha mão e colocou em meio
as suas pernas
Levemente mantive-a no joelho, enquanto ela
sorriu discretamente (daqueles em que só se
mexem as maçãs do rosto e a boca não abre),
agachou-se e vi seus seios
Tomamos o último gole de cerveja, ela recolocou seu
salto, me deu um abraço e se foi novamente pela viela do
boulevard, levando consigo a minha saudade e a indiferença
Só pensei nisso agora, ao ver a loja de sapatos que precede
o gueto. A minha sorte é que o tênis que gosto ainda está lá
Bem, isso é o que mais interessa
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Segunda-feira, Setembro 20, 2004
 
O inferno são os outros

´Leis injustas existem: devemos contentar-nos em obedecer a elas ou esforçar-nos em corrigi-las, obedecer-lhes até triunfarmos ou transgredi-las desde logo? Num governo como este, os homens geralmente pensam que devem esperar até que a maioria seja persuadida a alterá-las. Pensam que, se resistissem ao governo, o remédio seria pior que o mal. Mas é culpa do próprio governo que o remédio seja, efetivamente, pior que o mal. É ele que o torna pior.´

Hendy David Thoreau, em A Desobediência Civil

É dentro de minha anarquia que meu mundo se organiza
não tenho mais forças para lutar contra a normalidade e o
status quo das forças dominantes
Replico em levantar um dedo para tentar dissuadir alguém a
motivar minha luta desarmada anti-violência e assédio intelectual
Vendo os meus espúrios resultados mentais em doses homeopáticas
distribuídas diariamente em troca de resultados financeiros vindos em duas datas distintas: todos dias 20 e dia 5.
A dignidade há tempos já não existe. Vegeto profissionalmente por
conta de uma distinta necessidade de viver com mais exuberância e com um pouco mais de respeito às necessidades humanas
É por essas e outras que ainda penso que o melhor caminho é a saída.
Melhor seria nem ter entrado, já que a volta me parece ineficaz
E as putas, travecos, gigolôs e outros seres habitantes da Major Sertório ao menos sabem ao certo a qualidade do que produzem, em contrapartida a minha, que nem sequer útil o é, em detrimento de alguns que imaginam a mesma ser.
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Quinta-feira, Setembro 09, 2004
 
Distimia blues

O desejo de ter muito tempo para fazer várias coisas
e quando o coseguimos não fazemos nada
Gostamos de possuir mais do que já temos
só que não sabemos sequer administrar o que já possuímos
Ter várias experiências de relacionamentos e
sequer conseguimos mandar um mail desejando um bom dia
Beber sempre e mais, sem se preocupar com o tempo
e, na correria do dia seguinte, morrer de sede
Seduzir, trepar, gozar e repetir tudo de novo, num desejo
infindável, mas no fundo não sair da imaginação projetada
Pregar a busca de uma felicidade e acreditar que ela
está na quantidade de notas da carteira, ou em ter uma casa,
um carro, uma boa carreira, bebidas e, no fundo,
conviver continuamente com uma tristeza sem fim
Incluir mais um contato no Orkut e passar da centena
e não conseguir combinar um chope no final do dia pois todos
tiveram de pegar o metrô para descansar
Considerar as palavras e metáforas uma forma de escape
quando não se sabe administrar a própria solidão e tristeza
Ouvir todos os sons dos últimos lançamentos e não
ter acabado de ouvir aquele CD comprado na semana passada
É uma pretensão de pedir ajuda, quando no fundo se quer
apenas um canto, quieto, onde nunca ninguém te achará
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Segunda-feira, Setembro 06, 2004
 
Apoplexia comportamental

Pensei que algum dia poderia me esforçar
para objetivar interesse em algo
Ou ao menos preocupação com as crianças da
Ossétia do Norte, os mendigos da Sé, enfim...
Nessas horas é que um ronco de um motor
me vem à mente, com um sentimento de vento
atingindo meus cabelos e meu rosto,
indo firmemente e com propósito para lugar indefinido
Apenas pelo simples fato de mergulhar na indiferença
Às vezes dá susto e medo
A morte não tem mais efeito e a lágrima não escorre
O amor que foi perdido sem sequer ser nutrido, ou mesmo
a total incapacidade de tomar partido em uma situação
Que cada um tenha seus sentimentos, pensamentos e
ressentimentos, mesmo que não existam
Eu só quero é ouvir o estampido de mais uma lata
abrindo, olhando com a mesma desmotivação que
aflora a cada dia, sem a mínima vontade de discutir para
que isso muda
Mesmo que tenha alguma motivação para mudar, acho
que ela desertou
Eu é que não vou me esforçar para buscá-la
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