Metralhadora Giratória

Atirando por todos as direções. Azar se for o alvo, infeliz se for munição. A inconveniência é um prazer. Questão de afinidade.



ESSES METRALHAM BEM
Marião
Sérgio
Ronaldo
Fernanda
Na moita, mas achei
Raquel
Adriana du Mal
Desgraceira
Lu, a boleira
Fausto à lá O´Neill
Eduardo Castanho
Fao Carreira
Marisola
Junior Leal
Mari P., my bró
Mão na Bunda
Casa do Horror

METRALHE
Vai, puxa o gatilho!


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Terça-feira, Janeiro 25, 2005
 
A Justiça é burra. E ficou de recuperação

O Que Restou do Sagrado Eu é que não sei.
Ultimamente estou relutando e muito para não
escrever a respeito de peças, filmes, música,
lástimas a respeito do trabalho, seja lá o que for.
Fato é que não dá pra não comentar a respeito
dessa peça do Cemitério de Automóveis em cartaz
no Teatro dos Satyros (na Praça Roosevelt, a um
quarteirão de minha nova casa).
A peça. Uma caralhada de vezes eu me questionei
a respeito dessa relação de opostos.
Fui fundo, li, reli, participei de rituais, bebi coisas
indivulgáveis e submeti meu corpo, alma, pensamento
e sentimento em coisas que resultaram em nada.
Não sei se questionaria Deus ou Diabo diante do meu já
convicto existencialismo cristão.
O que sei é que O Que Restou... responde a muitas coisas
que já havia pensado e nunca consegui encontrar conclusões.
Por força da profissão eu já entrevistei várias figuras, uma
delas em especial. Trata-se da mãe de um homicida que ficou
muito conhecido na mídia depois de fazer arruaça num cinema.
Ela dizia que não conhecia aquela pessoa e que só fazia
lembrar de uma criança feliz, ingênua e pura.
O olhar dele dizia outra coisa. O cara queria estourar miolos
despudoradamente em plena projeção. Se ele se arrependeu disso.
Os laudos psiquiátricos dizem que não.
Outro matou um casal de namorados enquanto esses acampavam.
O pivete _hoje enfurnado numa suposta instituição para menores_
não se arrependeu nem nunca se arrependerá.
Aos 21 anos, quando sair de onde está, irá fazer pior.
E por aí vai. Onde ele está eu não sei. O que sei é que a cada
dia que passa creio mais na incredulidade, alimento com fome
incessante a indiferença a respeito de tudo e de todos.
Acho que ele, no alto de seu status cultuado por um terço da
população do planeta, faz o mesmo.
O que escrevi aqui nada tem a ver com o enredo da peça.
Mas me deu um pouco mais de subsídio para, complacentemente,
sentar na calçada, abrir uma lata de cerveja e olhar o cachorro
correndo atrás do pneu do carro enquanto ouço tiros ao fundo.
A peça rola às segundas e terças às 21h30.
Dica: o Satyros fica ao lado da Igreja da Consolação.
Morre em R$ 10, que aliás são muito, mas muito bem pagos
-
Sábado, Janeiro 22, 2005
 
Reflexão póstuma

Verão, calor, madrugada. Sacada do oitavo andar de um
apartamento no centro de São Paulo


Juro que não queria te empurrar
Vendo o teu corpo estendido no asfalto
Penso que poderia ser diferente
Você só queria sexo e fugir daquela rotina
Mas ninguém falou em sentimento
Contrato de cláusula leonina
Só sei que gostei. De você suando,
gozando e sorvendo todo o esperma
Como um perdido no deserto com seu cantil
Agora preciso dormir um pouco
Sinto mas não posso esperar pela ambulância
Amanhã é dia cheio, preciso trabalhar
E afinal de contas eu estou com um sono terrível
Literalmente descanse em paz
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Terça-feira, Janeiro 18, 2005
 
Não havia como não publicar

Mulher tenta "plantar bananeira" em varanda de hotel, cai e morre

da Folha Online

Uma mulher morreu após cair do segundo andar de um hotel quando tentava
"plantar bananeira" [ato de ficar de cabeça para baixo com o corpo equilibrado
sobre as mãos] na barra de proteção da varanda do quarto em que estava.
Após desequilibrar-se, Molly Jerman, 23, caiu no pátio do hotel, na noite do
último domingo (16), segundo a polícia do Condado de Lee, na Carolina do Sul.
Pouco antes da queda, Jerman chamou a atenção de uma amiga para que visse
o que ela estava prestes a fazer: "Olha o que eu consigo fazer", disse a vítima.
Não há indicações de envolvimento de outra pessoa na queda de Jerman.
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Sexta-feira, Janeiro 14, 2005
 
Flashes

Alguém gritando do outro lado da linha telefônica
Um coco quebrado que liberta dentro de si a noite
Um som de sax saindo do fundo de um beco
A dor da penetração em uma virgem
O sangue que escorre da boca
Um pivete vendendo o chiclete na esquina
A velha negra com olhos tristes
A glande de meu pau sendo lambida
Olhos rasgados pela ponta de uma espada
Um adeus raivoso e um pedido não atendido
O desejo contido, a espera, suor, cansaço
Vontade de pular a janela mas sem saber
ao certo por qual motivo
Grunido de uma guitarra de um jazz fusion
O choro descancarado e o enrolar dos cabeços
pelas pontas dos dedos
Um olhar de soslaio invo embora pela fresta de
uma porta semiaberta na penumbra
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Sábado, Janeiro 08, 2005
 
Otimismo black-tie

Tem gente que não entende realismo
e o confunde com derrotismo
É gente que não reconhece a própria miséria
ou fecha os olhos e só abre com um livro de
auto-ajuda à lá Içami Tiba e uma letra de música
de banda de gosto altíssimamente duvidoso
em busca de uma resposta pronta e concisa
O otimismo estava vestido para uma festa
era festa de pompa, em lugar de bacana
caviar, champagne e black-tie
Não foi percebido por ninguém
tentou ser gentil, mostrar seus dotes e
dizer que era boa pessoa
Aí o otimismo se cansou, pegou seu carro e
foi dar uma volta no centrão
Na esquina da Luz, teve o cano frio de um
treizoitão encostado na nuca
Tentou acelerar e levou vários balaços
Ainda sangrando, foi violentado
Arrombaram o cú do otimismo, roubaram
seu carro, seu talão de cheques, deixaram-o
sem roupa, ralaram sua cara e o esquarteijaram
Hoje tem gente que ainda acredita que ele está
com aquele black-tie, na festa sorridente e com cara
de bons amigos e simpatia à flor da pele
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