Metralhadora Giratória

Atirando por todos as direções. Azar se for o alvo, infeliz se for munição. A inconveniência é um prazer. Questão de afinidade.



ESSES METRALHAM BEM
Su
Marião
Sérgio
Ronaldo
Desgraceira
Casa do Horror
Marisola
Fernanda
Adriana du Mal
Eduardo Castanho
Fausto à lá O´Neill
Na moita, mas achei
Lu, a boleira
Raq

METRALHE
Vai, puxa o gatilho!


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Quinta-feira, Março 24, 2005
 
The hell

Pisar em cascas de ovo com pés sangrando
Ouvir blues em meio a uma bateria de escola de samba
Crer numa mudança que tarda a vir
Apontar o treizoitão com vontade e disparar nas águas da piscina
Uma picanha sangrando na sexta-feira santa
Fantasmas que saem das telas em busca de encarnações reais
Passado subjugado, podre, fétido e sujo
Que reflete no presente e maluca o futuro
Um distanciamento velado, de protesto, que esconde dentro
da ferida uma casca de pus pútreo e que necrosa a alma
Saber que diferenças são maiores que sentimentos
E na queda de braço o que vale saber é que não haverá mais
presente e que a carne clama pelo coito para atingir o gozo
Um instrumento, nada mais
-
Sábado, Março 19, 2005
 
(in) Sensibilidade
Existe um destino, o de tomar vinho chapinha
em copos sujos de bares localizados em becos
Café, logo pela manhã, regado a um borra de coador
e aquelas fatias sujas na graxa
Comportamentos díspares e masculinos deixando
de lado a feminilidade e os sentimentos
Transar em cima de lápides ainda debaixo do
corpo fresco de quem se foi tragicamente
Olhar para os lados, e, em meio a digitações de
textos, se deixar entrever o próximo coito
Que pode estar num clique, na submissão ou
ainda na necessidade de uma natureza sórdida
Reações de indiferença e esforço apenas se aquilo
que estiver perto um dia pensar em ir para longe
E sorver o amargor de aproveitar à lá La Belle de Jour
dissimulando prazeres e sentimentos
Limpando-se do gozo da lascívia para mais tarde se render
novamente a dissimulações de sentimentos que não são seus
E, baseado em subterfúgios, fazer acreditar que o sol brilhará
e alardear que mãos estão repletas de rosas
quando o que se oferece são apenas os espinhos que
sangram e deixam abertas feridas que nunca se fecharão
-
Segunda-feira, Março 14, 2005
 
To give up

De imanências e insistências
Ausências não explicadas
Motivos inexplicáveis de falta
De desire
Um ar blasé e uma palavra
Deixa pra depois, quando eu quiser
Imperativo, seco e altivo
Como se deixando espaço e se conscientizando
que o que era já não o é mais
Contato, calor, desire e....to give up
Saudade de algo que está do lado
Uma distância mesmo estando a um centímetro
do que se quer e de palavras ditas ao ar
Ligações não atendidas, sumiços e suspeitas
Receitas de amor, ódio, sucesso e fracasso
Uma sombra que espreita e a não clareza faz
retrai o sentimento, guarda-o em papéis amassados
de queijo polenguinho...
Cheguei para meus demônios e disse sorrateiramente:
vamos sair, passear e sermos felizes. Tentei dissuadí-los
de vontades torpes e afogá-los. Sucumbiram e voltaram
mais fortes do que nunca e se transfiguraram no que mais
execro. E agora é a arma que se volta para meu pescoço
-
Quinta-feira, Março 10, 2005
 
Darkness on the noon

Dias ensolarados me entristecem
Ver a alegria de pessoas com pouca roupa na rua
Andando, suando me dá a sensação de estar no lugar errado
Curto sobretudo e dias nublados
Prefiro a jaqueta do que a sunga
E tomar vinho tinto do que cerveja gelada
-
Segunda-feira, Março 07, 2005
 
Sir Dylon Thomas
Conto de Inverno

É um conto de inverno
Que o cego crepúsculo de neve transporta sobre os lagos
E os flutuantes campos da fazenda na taça dos vales,
Deslizando tranquilo entre os flocos agarrados com a mão,
Sobre o pálido bafio do rebanho junto à vela furtiva,

E as estrelas que caem frias,
E o cheiro do feno em meio à neve, e a distante coruja
Que adverte entre os apriscos e o gélido refúgio
Agarrado à fumaça branco-ovelha da chaminé da estância
Nos vales cruzados pelo rio onde a história é contada.

Outrora, quando o mundo envelheceu
Numa estrela de fé pura como o pão que boiava sem destino,
Como o alimento e as chamas da neve, um homem desenrolou
Os pergaminhos de fogo que ardiam em sua cabeça e em seu coração
Rasgados e esquecidos numa casa sobre uma dobra da campina.

E ardendo então
Em sua ilha flamejante cingida pela neve alada
E as esterqueiras brancas como a lã e os poleiros das galinhas
Que dormiam enregeladas até que a chama da aurora
Penteasse os pátios encapotados e os homens da manhã

Tropeçassem nas enxadas,
E o rebanho espreguiçasse, e o gato arisco perseguisse o rato,
E os pássaros eriçados saltassem para caçar, e as suaves
Ordenhadoras arrastassem seus tamancos sobre o céu desmoronado,
E toda a fazenda despertasse em seus brancos afazeres,

Ele se ajoelhou, chorou, rezou,
Junto ao assador e à caneca escura sob a faiscante luz da lenha
E à xícara e ao pão partido entre as sombras bailarinas,
Na casa abafada, no decorrer da noite,
À beira do amor, apreensivo e atraiçoado.

Ajoelhou-se sobre as pedras frias,
Chorou desde a crista da dor, rezou ao céu nublado
Para que a fome fosse embora uivando sobre alvos ossos nus
Além das estátuas dos estábulos e das pocilgas com tetos celestes
E do cristal da lagoa dos patos e dos ofuscantes currais solitários

Até o lugar das orações
E das chamas, onde pudesse vagar sob a nuvem
De seu amor cego pela neve e precipitar-se para as brancas tocas.
Sua miséria desnuda o golpeava e, arqueado, ele uivava
Embora som algum flutuasse no ar enrugado em sua mão

A não ser o vento que excitava
A fome dos pássaros nos campos do pão, da água, lançados
Nos altos trigais e a colheita a derreter-se em suas línguas.
E sua anónima miséria o enlaçava e ele ardia extraviado
Quando, frio como a neve, tinha de correr entre os vales cruzados

Pelos rios que desaguam na noite,
E afogar-se nos torvelinhos de sua miséria, e estender-se enrolado,
Agarrado ao centro desde sempre desejado do branco
Berço desumano e do leito nupcial eternamente procurado
Pelo crente perdido e o proscrito expurgado da luz.

Liberta-o, gritava,
Perdendo-o de todo no amor, e arroja a sua miséria
Nua e solitária na engolfante noiva
Para que ela nunca germine nos campos da branca semente
Ou floresça escarranchada na carne agonizante.

Escuta. Cantam os trovadores
Nas aldeias mortas. O rouxinol,
Poeira nos bosques sepultos, voa com os órgãos de suas asas
E soletra o seu canto de inverno aos ventos dos mortos.
A voz da poeira líquida que vem das fontes extintas

Está falando. O córrego seco
Salta com balidos e latidos aquáticos. O orvalho repica
Nas folhas trituradas e nos reflexos que há muito já não brilham
Da paróquia de neve. As bocas entalhadas na rocha são
cordas tangidas pelo vento.
O tempo canta por entre as obscuras campânulas mortas. Escuta.

Foi um som ou certa mão
Que abriu de par em par a tenebrosa porta na terra de outrora
E lá fora, sobre o pão do solo,
Uma ave se ergueu radiante como uma noiva em chamas,
Uma ave amanheceu, e seu peito se emplumou de neve e escarlate.

Olha. E os bailarinos se movem
Sobre os mortos, a neve se vestiu de verde, liberta ao luar
Com uma revoada de pombos. Exultantes, os cavalos de cascos solenes,
Centauros mortos, regressam e percorrem os alvos pastos alagados
Nas fazendas dos pássaros. O carvalho morto sai em busca do amor.

Os membros esculpidos na rocha
Saltam como ao som das trombetas. A caligrafia das velhas folhas
Está dançando. Os traços da idade sobre a pedra se entrelaçam num rebanho.
A voz de harpa da poeira das águas se desgarra de uma dobra das campinas.
Em busca do amor, alça seu voo a ave de outrora. Olha.

E as asas selvagens se elevaram
Sobre a sua cabeça enrugada, e a doce voz das plumas
Esvoaçou pela casa como se o pássaro entoasse louvores
E todos os elementos da lenta queda se rejubilassem
Porque um homem solitário se ajoelhara na taça dos vales,

Sob o manto, em sossego,
Junto ao assador e à caneca escura sob a faiscante luz da lenha,
E o céu dos pássaros com a voz emplumada o erguia ao sortilégio
E ele corria como o vento atrás do voo em chamas
Para além dos celeiros sem luz e dos currais da fazenda em calma.

Nos pólos do ano
Quando os melros morriam como sacerdotes nas sebes embuçadas
E as distantes colinas tangenciavam o tecido dos condados,
Sob as árvores de uma só folha corria um espantalho de neve,
Precipitando-se por entre os torvelinhos das moitas esgalhadas como cervos,

Andrajos e orações caíam sobre
As colinas ajoelhadas e ecoavam nos lagos adormecidos,
Perdidos a noite inteira e a vagar por muito tempo no despertar
Da ave através dos tempos, das terras e dos flocos de neve.
Escuta e olha por onde ela navega no mar agitado pêlos gansos,

O céu, o pássaro, a noiva,
A nuvem, a miséria, as estrelas fincadas no azul, o júbilo
Para além dos campos semeados e o tempo escarranchado na carne agonizante,
E os céus, o céu, a tumba, a ardente pia batismal.
Na terra que já fora, a porta de sua morte se abriu de par em par

E o pássaro desceu
Numa colina branca como o pão sobre a concha da fazenda
E os lagos e os campos flutuantes e os vales cruzados pelo rio
Onde ele rezava para alcançar o derradeiro prejuízo
E a casa das preces e do fogo, já terminado o conto.

A dança se extingue
Na brancura que já não reverdece, e, morto o trovador,
Aflora o canto nas aldeias de desejos calçados pela neve
Que outrora entalharam as silhuetas dos pássaros no pão profundo
E fizeram deslizar as formas dos peixes voadores sobre os lagos de cristal

Degolou-se o ritual
Do rouxinol e do centauro morto. As fontes voltam a secar.
Os traços da idade dormem na pedra até que a aurora se anuncie.
Jaz o júbilo. O tempo sepulta o clima da primavera
Que retinha e saltava com o fóssil e o orvalho renascido.

Porque a ave se deitara
Num coro de asas, como se estivesse morta ou adormecida,
E as asas se movessem em surdina e ele se sentisse louvado e casado,
E por entre as coxas da noiva envolvente,
A mulher com seus seios e o pássaro de crista celestial,

Foi ele enfim derrubado Ardendo no leito nupcial do amor,
No torvelinho do centro desejado, nas dobras
Do paraíso, no botão rodopiante do universo.
E ela se ergueu com ele florescendo em sua neve derretida.



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Quarta-feira, Março 02, 2005
 
Jealous

Alguém veio com um punhal
E eu não vi
Foi pelas costas
Se bem que poderia ser pela tela da internet
A garganta seca, a vontade de esvair o ódio
Ou desistir de tudo, ir para um lugar que não conheço
Botar o pé na estrada e contar apenas os passos que
me separam de um destino incerto
Arquitetar vinganças que nunca serão concretizadas
Dar cabo de algo que angustia e trava no peito
E repousar na esperança e no conformismo de que certos
sentimentos e situações são muito pesadas e não fui
definitivamente produzido para ter a mesmas
Dona Esperança, impávida, limpa e bela,
foi dar uma volta no centrão às duas da manhã
endoidou, parou no píco e catou um papel
cheirou até o talo dentro do banheiro sujo pelo vômito
deitou sua cabeça no ralo do banheiro escuro
veio um negão e mijou com sua pica em cima da cara
da dona Esperança. Aproveitou que estava por lá e
levantou o vestido de tafetá. Enfiou sua rola no cú da
dona Esperança e a fez gritar e sangrar
Em desespero e no baque do delírio ela saiu pela rua
Eram sete da manhã e topou de frente com um caminhão
de leite que passava pela Amaral Gurgel
Estatelada no chão, todos sentem pena pois era bela
Mas se perdeu
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Terça-feira, Março 01, 2005
 
No, no estai bien

A polícia garante que o corpo é de Lino
Insistem nessa idéia de Boa noite, cinderela
Pelo que conhecia dele não
Mas é muito mais fácil pra eles justificarem assim
do que aprofundar em outras possibilidades
A violência tá aí, na nossa porta
Dentro do ônibus, no nosso trabalho, rua, em casa
Ou velada, institucional e emocional
Em palavras ditas, em imposições, em condições e
submissões para se estra ou não com alguém
É vazio e solidão que ficam ecoando no peito
A contragosto, aceitar algo que violenta
e rasga, pisoteia e cospe no sangue apodrecido
Até logo meu caro
Lino Rojas 1943 - 2005
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