Metralhadora Giratória

Atirando por todos as direções. Azar se for o alvo, infeliz se for munição. A inconveniência é um prazer. Questão de afinidade.



ESSES METRALHAM BEM
Marião
Ronaldo
Espelho trincado
Desgraceira
Casa do Horror
Marisola
Fernanda
Na moita, mas achei
Adriana du Mal
Katarse da Rô
Betty Davis
Fausto botequeiro
Foda-se essa merda
Lu, a boleira
Raq
Mão na bunda
O dependente
Miscelania da Lu
Fiorin

METRALHE
Vai, puxa o gatilho!


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Domingo, Julho 31, 2005
 
Desempenho

Fumei, traguei, expeli fumaça na sua cara
Troquei teu nome por outra
Indisposto, neguei teu sexo
E voltei a falar de mortos, buscar notícias
de quem não mais está aqui
Enquanto amava outra durante dois anos fiz
com que você fosse minha válvula de escape
E nos oito meses aproveitei como pude
Disposição era o que não faltava
E agora volto, olho para tudo e digo que
aqui é meu lugar e ficarei
E por vezes faço como quero
Outro dia dormi depois de gozar
Você só ouviu o ronco e o nem percebeu o
pênis ereto que lá ficou dentro
E te agrido, te xingo, quebro tudo pra depois voltar
E te ver com todo ciúmes possível
Checando as chamadas de meu celular
Dizendo a PMs que não quer ouvir mais de ossadas
E me bater na cara, machucar e magoar
Dizer que não presto, juntar minhas roupas e dizer
para ir embora. Sei que você faz a maioria das coisas
E eu por ora fico lá sentado, te olhando
Mas no fundo não fico longe e sei que sempre estará perto
-
Sexta-feira, Julho 29, 2005
 
"Não confio na polícia raça do caralho"
Racionais Mc's

O Homem Na Estrada

Um homem na estrada recomeça sua vida.
Sua finalidade: a sua liberdade.
Que foi perdida, subtraída;
e quer provar a si mesmo que realmente mudou, que se recuperou e quer viver em paz, não olhar
para trás, dizer ao crime: nunca mais!
Pois sua infância não foi um mar de rosas, não.
Na Febem, lembranças dolorosas, então. Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim.
Muitos morreram sim, sonhando alto assim, me digam quem é feliz, quem não se desespera, vendo
nascer seu filho no berço da miséria.
Um lugar onde só tinham como atração, o bar, e o candomblé pra se tomar a benção.
Esse é o palco da história que por mim será contada.
...um homem na estrada.

Equilibrado num barranco incômodo, mal acabado e sujo, porém, seu único lar, seu bem e seu
refúgio.
Um cheiro horrível de esgoto no quintal, por cima ou por baixo, se chover será fatal.
Um pedaço do inferno, aqui é onde eu estou.
Até o IBGE passou aqui e nunca mais voltou. Numerou os barracos, fez uma pá de perguntas.
Logo depois esqueceram, filhos da puta!
Acharam uma mina morta e estuprada, deviam estar com muita raiva.
"Mano, quanta paulada!".
Estava irreconhecível, o rosto desfigurado.
Deu meia noite e o corpo ainda estava lá, coberto com lençol, ressecado pelo sol, jogado.
O IML estava só dez horas atrasado.
Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim, quero que meu filho nem se lembre daqui, tenha uma vida
segura.
Não quero que ele cresça com um "oitão" na cintura e uma "PT" na cabeça.
E o resto da madrugada sem dormir, ele pensa
o que fazer para sair dessa situação.
Desempregado então.
Com má reputação.
Viveu na detenção.
Ninguém confia não.
...e a vida desse homem para sempre foi danificada.
Um homem na estrada...
Um homem na estrada..

Amanhece mais um dia e tudo é exatamente igual.
Calor insuportável, 28 graus.
Faltou água, ja é rotina, monotonia, não tem prazo pra voltar, hã! já fazem cinco dias.
São dez horas, a rua está agitada, uma ambulância foi chamada com extrema urgência.
Loucura, violência exagerada. Estourou a própria mãe, estava embriagado.
Mas bem antes da ressaca ele foi julgado.
Arrastado pela rua o pobre do elemento, o inevitável linchamento, imaginem só!
Ele ficou bem feio, não tiveram dó.
Os ricos fazem campanha contra as drogas e falam sobre o poder destrutivo delas.
Por outro lado promovem e ganham muito dinheiro com o álcool que é vendido na favela.

Empapuçado ele sai, vai dar um rolê.
Não acredita no que vê, não daquela maneira,
crianças, gatos, cachorros disputam palmo a palmo seu café da manhã na lateral da feira,
Molecada sem futuro, eu já consigo ver, só vão na escola pra comer,
Apenas nada mais, como é que vão aprender sem incentivo de alguém, sem orgulho e sem respeito,
sem saúde e sem paz.
Um mano meu tava ganhando um dinheiro,
tinha comprado um carro,
até rolex tinha!
Foi fuzilado a queima roupa no colégio, abastecendo a playboyzada de farinha,
Ficou famoso, virou notícia, rendeu dinheiro aos jornais, hu!, cartaz à policia
Vinte anos de idade, alcançou os primeiros lugares... superstar do notícias populares!
Uma semana depois chegou o crack, gente rica por trás, diretoria.
Aqui, periferia, miséria de sobra.
Um salário por dia garante a mão-de-obra.
A clientela tem grana e compra bem, tudo em casa, costa quente de sócio.
A playboyzada muito louca até os ossos!
Vvender droga por aqui, grande negócio.
Sim, ganhar dinheiro ficar rico enfim,
Quero um futuro melhor, não quero morrer assim,
num necrotério qualquer, como indigente, sem nome e sem nada,
o homem na estrada.

Assaltos na redondeza levantaram suspeitas,
logo acusaram a favela para variar,
E o boato que corre é que esse homem está, com o seu nome lá na lista dos suspeitos,
pregada na parede do bar.

A noite chega e o clima estranho no ar,
e ele sem desconfiar de nada, vai dormir tranquilamente,
mas na calada caguentaram seus antecedentes,
como se fosse uma doença incurável, no seu braço a tatuagem, DVC, uma passagem , 157 na lei...
No seu lado não tem mais ninguém.

A Justiça Criminal é implacável.
Tiram sua liberdade, família e moral.
Mesmo longe do sistema carcerário, te chamarão para sempre de ex presidiário.
Não confio na polícia, raça do caralho.
Se eles me acham baleado na calçada, chutam minha cara e cospem em mim é..
eu sangraria até a morte...
Já era, um abraço!.
Por isso a minha segurança eu mesmo faço.

É madrugada, parece estar tudo normal.
Mas esse homem desperta, pressentindo o mal, muito cachorro latindo.
Ele acorda ouvindo barulho de carro e passos no quintal.
A vizinhança está calada e insegura, premeditando o final que já conhecem bem.
Na madrugada da favela não existem leis, talvez a lei do silêncio, a lei do cão talvez.
Vão invadir o seu barraco, é a polícia!
Vieram pra arregaçar, cheios de ódio e malícia, filhos da puta, comedores de carniça!
Já deram minha sentença e eu nem tava na "treta", não são poucos e já vieram muito loucos.
Matar na crocodilagem, não vão perder viagem, quinze caras lá fora, diversos calibres, e eu apenas
com uma "treze tiros" automática.
Sou eu mesmo e eu, meu deus e o meu orixá.
No primeiro barulho, eu vou atirar.
Se eles me pegam, meu filho fica sem ninguém, e o que eles querem: mais um "pretinho" na febem.
Sim, ganhar dinheiro ficar rico enfim, a gente sonha a vida inteira e só acorda no fim, minha verdade
foi outra, não dá mais tempo pra nada... bang! bang! bang!

Homem mulato aparentando entre vinte e cinco e trinta anos é encontrado morto na estrada do
M'Boi Mirim sem número.
Tudo indica ter sido acerto de contas entre quadrilhas rivais.
Segundo a polícia, a vitíma tinha vasta ficha criminal."

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Segunda-feira, Julho 25, 2005
 
Do mestre

Cuando la naranja
se vuelva a limón,
dejará un hombre de ser um ladrón

Cuando la naranja
se vuelve a pepino
dejará um hombre de ser asesino

Cuando una chica
se vuelva a muchacho
dejará un viejo de dormir borracho.

Una sola vez se muere, mi capitán
No andemos a las verdades, como hacem las comadres.
Dos perros y unb hueso en medio, no hay acuerdo.
Cada un sabe adonde le apreta el zapato.
Mundo loco, mundo loco, unos con tanto y otros con tan poco
En la mesa y en el juego conocese al hombre.
En el fuego, mi capitán.
Bueno.


Do grande Paulo Lemisnki, em Gozo Fabuloso
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Sexta-feira, Julho 22, 2005
 
A idade da razão

E chega um momento que a gente fica de sursis
É um estatus quo que insiste em avizinhar
Me deixando com a morte na alma
Cheio de absolutamente nada, vazio
Buscando tudo e esforçando-se para engajar em algo
O alvo é conquistado, e daí, vai-se para onde
Na busca de caminhos de liberdade que procuram
derrubar muros existenciais de palavras
Soltas ao vento, o ser e o nada, ou o ser é nada
Próximo a tudo, materializando-se no irreal
Deixando a consciência vazia, perigo nefasto
Nauseando e criticando a razão dialética
Me mantendo ainda como o idiota da família
Sempre sabendo que o inferno são os outros
Sartriniando, bem vindo balzaquianismo
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Segunda-feira, Julho 18, 2005
 
Abstinência póstuma penada

E tá lá o precipício
Fiquei na ponta dos dedos dos pés,
o vento frio batendo no rosto, 500 metros
No fundo, no horizonte, o mar,
acima, as nuvens e o céu
Sol tímido, coberto pela serração
Às vezes dá o frio na barriga, aquela sensação
de de já vú e que tudo será como antes
Mas é preciso tomar coragem, respirar fundo,
abrir os braços, deixar o vento bater mais forte...vou
Sinto a velocidade e os lábios tremendo, os dentes
batem de tanto frio num sorriso plástico, à lá ¿O Máskara¿
Já são 100 metros. Em menos de dez segundos chegarei lá
Nesse meio tempo a vida passa como um micro-curta
E estabelecem recordações que não serão mais vividas
E a expectativa é que tudo acabe e que leve comigo
300 metros
Já não consigo mais sentir o vento, é natural cair
Meus dedos estão congelados e meu estômago já está nos pés
400 metros. Já consigo ver os arbustos mais de perto
Um leve cheiro de relva esvai
450 metros. A euforia toma conta, firmo a cabeça contra o peito,
espero o impacto e que não seja muito forte
470 metros, 475, 480, 490, abro um sorriso e levanto os dedões
das mãos para a platéia que delira em mais um espetáculo
E todos riem. Levaram bandeiras, fizeram pic-nic, estacionaram
os carros longe e aguardam morbidamente qual será o próximo
Para eles, um ilustre desconhecido. Mas é o mais importante pois
é quem vai proporcionar o maior espetáculo visto por eles
495, 496, 497, 498, 499......
E foi lindo aquele dia. Lembro como se fosse hoje.
O problema foi o velório. Risível. Choro, tristeza e até flores.
Me vestiram com meu terno risca-de-giz. Me senti até importante
Mas agora vago e na lembrança só o sabor de algo que já
me serviu e fui servo. Mas vagueio e percebo que é melhor assim.
Longe de tudo. Melhor para outros e matando a quem deveria
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Sexta-feira, Julho 01, 2005
 
Cérbero reloaded

Na divina comédia da vida, meu cérbero particular pediu exílio
cansou de ver gente entrar e ninguém sair e desistiu
Disse ele que das três cabeças, o neurônio de duas já
haviam sido aniquilados e apodreceram no elitismo
Pegou a última que tinha, deu adeus a todo subterrâneo,
atravessou a zona sul e foi parar no salão de beleza
instalado elegantemente na nova Daslu da Marginal Pinheiros
Os heróis até que olharam para a porta e não o encontraram
Já estavam sob a síndrome de Estolcomo e consideravam
como dócil cãozinho bravo mas nada mau
No caminho Orfeu trouxe a lira e Hércules foi com suas mãos
A estratégia era simples: enquanto um tocava a lira, outro
massacrava o tricabecístico animal
Psique também marcou com outros dois mas o pão de mel
não havia assado a tempo
Para desgosto de todos, Cérbero já não estava
Foi pregar o absenteísmo no subterrâneo
E só voltava se tivesse mensalão para saciar seu enorme apetite
Hoje está abstêmio e na cadeira do secador da Daslu imagina
que tudo é passado
Vai tratar de cuidar do que restou
Até que abre os olhos e encontra em sua frente a patreca da moda,
recordista de passarela do São Paulo Fashion Week
Recorda o quão bom era deixar que todos entrassem na porta do inferno
mas o quão duro e rígido era para com os que queriam sair
Arrependido, desfez seu penteado, pagou R$ 100 de estacionamento
pelos 30 minutos de sua carruagem e seguiu até o subterrâneo
Nesse meio tempo Psique já havia preparado o bendito pão de mel
Em companhia de Orfeu e Hércules, Psique fumava um cigarro num canto da festa, vib nervosa, pico positivo que virou o inferno
Cérbero olhou para tudo aquilo, ficou deprimido e rosnou profundamente
Seu grito foi ouvido por todo inferno, ecoou, e de tão alto chegou aos ouvidos de Zeus que levantou de seu trono e ordenou lava a todos
Túmulo sepulcral de demônios, anseios, vontades, desejos e frustrações
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