Metralhadora Giratória

Atirando por todos as direções. Azar se for o alvo, infeliz se for munição. A inconveniência é um prazer. Questão de afinidade.



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METRALHE
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Segunda-feira, Novembro 02, 2009
 
Finados

Nunca me liguei em Finados. Respeito quem vai em cemitérios, chora, sente saudades, etc.
Não que eu não sinta saudade. Sinto e muita. Neste exato momento sinto uma saudade tremenda
de uma pessoa e ela nem desceu à cova.

Quando meu primeiro sobrinho era criança –e hoje tem 15 anos- eu até ensinei ele
a dizer “feliz dia de Finados” pros outros. Hoje ele é quem faz isso com o irmãozinho
dele, pra orgulho meu e desespero de minha cunhada. Eu tinha uma técnica: se você diz
alguma merda e sorri, a criança aprende pois aquilo lhe dá uma sensação boa e ela repete.

Talvez daí a indiferença. Sinto saudades de gente viva, confesso. Uma delas em especial me faz
doer o coração. Dos mortos, o meu avô paterno, que me ensinou coisas boas na vida, como apreciar
uma tela de um artista plástico, dança (tá, eu sou um prego mas não é culpa dele) e sambões antigos e
dos bons. Fato é que não tenho lá boas lembranças de Finados. No enterro de minha avó paterna –que
sofreu pra caramba antes de morrer- lembro que eu e meus primos comíamos bisnaquinhas e secávamos
o café e alguém começou a soltar piada. Meu pai nos viu e mandou o coro ali mesmo, na antesala ao
lado do corpo da mãe dele.

Mais tarde lembro-me de minha mãe e tias fazendo romarias para lavar lápides.
Era engraçado ver aquelas mulheres carregando baldes, vassouras, omo, etc, rumo aquelas casinhas
de tijolos. Eu achava aquilo chato mas não tinha lá grande escolha.
O problema não era ir e ver aquelas coisas. O problema era voltar. Em muitas vezes
meu pai encasquetava e achava que minha mãe lá tinha caso e aproveitava a saída
pra chifrá-lo. O sujeito, invariavelmente bêbado e louco, se bem que poucos são os
momentos que eu lembro dele sóbrio e bem, inventava coisas pra lá de loucas.
Lembro-me de um dia em particular que ele mandou minha mãe sentar numa poltrona
e ficou fazendo uma verdadeira inquisição. Perguntava e antes da resposta socava,
chutava, etc. Ver aquilo, ela sangrando, ele louco, violento, nos fazia chorar. O máximo
que conseguíamos ao tentar interceder era apanhar também. E não era pouco. Aí ela
chorava e gritava pedindo para que ele só batesse nela e nos poupasse. De tão louco
ele distribuía pra todos.

O tempo passou. Deixei de ser esguio, magro, treinei e fiquei até que razoavelmente forte. Por um
motivo que não lembro agora houve nova briga, ele de novo ficou louco,
com raiva, violento, bateu nela, etc e então corremos todos os três –eu e meus dois irmãos pra
casa de meu avô paterno, que ficava próximo. O meu pai, depois de espancar
minha mãe foi atrás. Meu avô tentou dialogar, segurar meu pai e nada resolveu. Ele
queria ir pra cima da gente. Por um motivo esquisito meu avô teve um infarto e morreu ali. Em
revide peguei um paralelepípedo e fiz o que nunca antes fizera. Me defender e
defender meus irmãos. Resultado foram quatro costelas quebradas, dez pontos na cabeça
de meu pai e um carro estourado –quando meu irmão sem habilitação e minha irmã
desesperada pegaram o carro pra levar meu avô pra Santa Casa local e estouraram tudo.

Fiquei inerte com a morte de meu avô paterno, figura que admirava demais. Depois disso não
me lembro de te ido tanto assim a cemitérios além dos enterros. Prefiro manter a imagem dele vivo, e, de preferência, perto.

Hoje percebo que fantasias existem e podem levar à morte se não foram devidamente
tratadas e eliminadas. Não quero celebrar morto algum. Que meu avô esteja bem onde estiver e
se estiver por perto –como algumas vezes sinto- que seja para me passar coisas boas como a dança,
artes, e tudo o mais que ele gostava tanto. Que era viver.

Vou tentar, mais um dia, lutar para resgatar o que está vivíssimo e quase matei. Viver e bem pra
que coisas como as escritas acima não venham a influenciar as atitudes que tenho agora, mas
sejam apenas mais um post num blog-divã.
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